terça-feira, 30 de junho de 2009

Companheiros de vagão

Sou relutante em aceitar que todos estes que acompanham o meu caminho não trazem nem mesmo talhado na pele, na postura do corpo ou nos músculos pungentes de trabalho pesado, o interesse que me desperta fatos e trajetórias extraordinárias. Experimento algumas vezes um pouco de incômodo ao imaginar que talvez me pudesse faltar artifícios e até capacidade para invadir estes seres promíscuos à propagação da ignorância, e encontrar qualquer coisa que me seja estranha.
Sei que não me engano. Sou de uma terra sem novidades. Aqueles que me acompanham abraçados uns aos outros sem afeto, recentemente despertados de seus sonhos na ida, ou alegremente moribundos na volta, levam nas roupas algum pedaço do estofado do sofá, ou talvez uma pluma do travesseiro aconchegada nos cabelos; no todo o espírito de nossas riquezas roubadas. Gente simples no hábito que vão lançando os seus dias assim como as inúmeras copiadoras do comércio que nos rodeia.
Fecho-me nas páginas de meu livro plenamente absorvido pela concentração de meus sentidos. Acho impossível que me fuja a atenção neste território tão devastado.


***


Virei-me por sobre os ombros e pude ver as ruas aquareladas de Sol após a vidraça. Meu corpo invadiu-se de acalanto. A cerveja gelada para minhas entranhas carbonizadas. A liberdade das ruas. O fim de um compromisso diário. Ergui um leve e débil sorriso. Achei-os merecedores dos mais cruéis sofrimentos. Sou mais outro dentre estes contaminados. Estivesse eu nascido algumas fronteiras adiante eu poderia ter sido mais inteligente. Mas tudo bem, idiotice maior seria ficar analisando este fato. E então, ao bater das 18:00h, o horário mais carnavalesco do meu relógio, iniciei minha retirada.
Arreganhei minha mochila sem furtos quase com a alegria em desespero. Sacudi uma dúzia de mãos bobas e finalmente estava liberto. Nos miolos de um entardecer ensolarado percebia o despontar muito próximo de mais uma noite atormentada e faminta. Bebo, bebo, e não há alimento, nem dos mais eróticos aos fálicos paladares, que me atice o apetite. Que se vá os meus restos de quilos!
O copo, americano, suava tanto quanto os trabalhadores que iam brotando pelos cantos das paredes abarrotadas de anúncios sensuais. Os goles se sucediam proporcionalmente ao relaxamento de minhas cavidades orgânicas. Havia me sentado no fundo do bar e podia ver escorrer pelos olhos melosos do meu povo os germes da embriaguez. Ficaria absolutamente deprimido em ter de construir conversas miseráveis com estes homens. Pensava comigo mesmo: “tamanha tecnologia corpórea em total estado de degradação física e psicológica”. Mas independente disso eu podia perceber que meu corpo necessitava de um longo banho, uma boa esfregada deslizante de um sabonete, um tépido enxágüe. Nem todos ao meu redor fariam isso quando chegassem em casa, certamente não estariam em condições para isso. Mas jantariam, comeriam qualquer coisa, pois são glutões insaciáveis. Gostaria de ser tão glutão quanto esses sujeitos que mais se parecem a ogros do que a seres humanos.
Um velho arroxeado aproximou-se de minha mesa, assustou-me no princípio pela aparência extraordinária: gordo, roxo, cabelo preto e colado a cabeça, parecia untado na manteiga, mas nem por isso estava despenteado. A morte lhe rondava tanto quanto o odor de cachaça. Derramou seu braço na minha frente e apoiou-se com a mão no meu ombro.
- Ô moço quero me sentar... Não se incomode comigo não, ta certo?
- Fique a vontade.
Com uma dificuldade enorme, como se carregasse um saco de cimento nas costas, o sujeito mais horrível do planeta sentou-se ao meu lado. Eu deveria me sentir satisfeito com isso obviamente, pois nem todos tinham aquela oportunidade. A primeira coisa que me ocorreu foi observar as sua contundente orelha esquerda, que guardava gananciosa um número absurdo de pelos inchados. Passou-me pela cabeça que havia dentro daquela cavidade cavernosa um homem pré-histórico agarrado a uma ovelha. A idade, infelizmente não lhe havia presenteado uma barba adequada, pois certamente quanto mais barba melhor.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

c`est la vie.

Talvez eu esteja com mais vontade da vida do que eu possa perceber. Sinto que a desejo mais do que a tudo neste mundo, mas no mesmo instante não faço muita idéia do que ela represente ou do que deveria ter como substancia. Sou apreciador de todos os seus substratos viciosos e relego à sarjeta o que muitos acreditam ser a parte essencial da boa vivencia. Sou triste e vigoroso demais nas poucas alegrias que experimento. Sou preguiçoso. Quando não devo me ater ao trabalho pouco remunerado que levo, mal consigo me erguer da cama nas tardes que são minhas. Mas vivo alucinado pelas madrugadas, tão vazias de amor e tão repletas de falsa juventude.
Não vejo muito sentido no que faço, e muito menos sentido vejo em minhas pretensões. Na realidade, se eu for usar de minha virtuosa sinceridade, afirmo que desprezo e menosprezo o que seja a vida; a vida humana. Abomino a humanidade. Esta humanidade bárbara e cheia de ferramentas grotescas para facilitar nossas destrutivas corrupções. Devia não ter nascido, pois me culpo quando no banho vejo resvalar a meus pés minha imundície e meu sabonete. E a água quase pura que se vai perdendo pelos esgotos. Podíamos esperar pela desgraça, se obviamente a desgraça já não estivesse nos acontecendo. A nossa desgraça é a pérola que se constrói neste mundo.
Mas não deixo de amar minha vida. Amo-a sem muito esforço e sem qualquer ideal. Sinto o que sinto simplesmente. Sem motivos aparentes; talvez exista algo subliminar que não tenho a devida sensibilidade para perceber. Mas sei, sem dúvidas, que amo a vida. Estranho é justamente o fato de que a vida me proporciona uma avalanche de aflições e ressentimentos, a vida me traz um temor que eu diria ser paradoxal, pois veja bem: temo que a morte me surpreenda antes que eu tenha feito algo de notável, algo de valioso ou puramente válido e que perdure, mas carrego a convicção de que junto da morte ira padecer tudo o que sou. Espíritos não existem, e mesmo que eu imaginasse que pudesse me manter vivo através de algo perdurável que eu deixasse neste mundo, sei muito bem que tudo neste mundo é perecível. Até mesmo o universo irá se apagar, e tudo será consumido por uma matéria negra. Matéria esta que os cientistas não sabem do que se compõe, mas enfim, diante disso por que me preocupar? Sou tão convicto da impermanência de tudo o que existe, mas ainda me aflijo com o que eu possa construir de duradouro.
Duradouro entenda-se na forma de arte, justamente por isso escrevo agora. Tenho um desejo por estilos que ainda não me pertencem e que estão submetidos a toda sorte de experimentações. E se eu desejo realmente fazer o nada pelo nada, construir o que não fará qualquer diferença para qualquer coisa neste mundo, me divertir com o próprio cadáver da minha vida, devo começar por aqui, aproveitando do fato de que já está tudo quase acabado.
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Meus sentidos estão flácidos e sonolentos. Fico acordado por teimosia, drogado e envenenado até os ossos; magro. Sempre fui magro, mas agora sou um magro com olheiras profundas e risadas disfarçadas. Meu Deus, me de uma luz...